Por trás das estatísticas do desemprego juvenil em Moçambique, há uma geração que recusa
ser definida pela espera das oportunidades de emprego que o os sucessivos Governos prometem
criar.

Ser jovem em Moçambique parece ser sinónimo de esperança e frustração. De um lado, o
sonho legítimo de um futuro melhor. Do outro, a realidade dura de um presente onde as
oportunidades parecem uma miragem. O país figura entre os piores da África Austral em
índices de desemprego juvenil, um quadro marcado pela informalidade, empregos precários e
um sistema que raramente absorve os milhares de jovens que todos os anos chegam à idade
adulta sem porta de entrada no mercado formal.

Particularmente na cidade de Nampula, a considerada capital do Norte, essa tensão é visível no
quotidiano: nos bancos das praças, nas esquinas dos bairros periféricos, nos olhos atentos de
jovens que, apesar de tudo, ainda procuram por um começo. Mas há quem não espere. Há
quem decida começar antes que a oportunidade bata à porta. Silenciosamente, emerge um
movimento: feito de inquietação, criatividade e coragem.

Chama-se empreendedorismo jovem, mas poderia muito bem se chamar resistência activa.
São jovens que decidiram não esperar pela vaga que não vem, nem pelas promessas que se
repetem. Criam os próprios empregos, inventam os próprios caminhos, desbravam um terreno
duro com ferramentas simples, ideias grandes e uma vontade ainda maior. Uns abrem gráficas
com um único computador, outros montam oficinas. Há quem aposte em tecnologia de ponta,
mesmo sem nunca ter saído do bairro. E, aos poucos, vão redesenhando o mapa económico e
social da cidade, costurando uma nova narrativa com as próprias mãos.
Nesta edição, apresentamos três histórias reais, enraizadas na poeira e na esperança de
Nampula:
João Maida, designer gráfico autodidata que fundou a Zyma Services, uma gráfica que já
começa a formar e empregar outros jovens como ele
.
Ali Manuel, serralheiro que aprendeu o ofício na observação e construiu uma
oficina robusta no bairro Muahivire, soldando oportunidades a cada portão que fabrica
.
Chuvane Cuinica, co-fundador do Mundo Virtual, o primeiro centro de realidade virtual
da cidade, que transforma óculos futuristas nos instrumentos de educação, lazer e
inspiração
.

Eles são diferentes em formação, origens e trajetória, mas convergem num ponto
essencial: recusaram a estagnação. Onde muitos viam fim, eles viram início. Onde faltava
caminho, criaram um.
Se a juventude é o motor de qualquer sociedade, Nampula tem nele um motor barulhento,
audacioso e ainda pouco reconhecido. Mas ele está a girar – nas impressoras da Zyma, no calor
da soldadura de Muahivire, nas experiências imersivas do Mundo Virtual. E o que antes parecia
excepção, hoje começa a apontar para um novo normal.
Estes são os jovens que constroem. E as suas histórias, contadas no suplemento Ngani
Negócios, reforçam um princípio simples e poderoso: quando alguém é visto, pode ser
valorizado. E quando é valorizado, transforma o lugar onde vive.

Com papel, coragem e criatividade, João desenhou seu próprio
caminho

O jovem João Maida nasceu e cresceu em Nampula. Aos 26 anos, lidera uma pequena gráfica
chamada Zyma Services, localizada num espaço modesto, mas repleto de dinamismo e
criatividade. A gráfica, especializada em impressão de cartões, brochuras, faixas, banners e
serviços de design gráfico, nasceu da junção de talento e resiliência. “Na Zyma não imprimimos
apenas faixas e cartões. Imprimimos sonhos,” diz com orgulho João Maida.
O percurso de João é marcado por resiliência. “Foi uma escolha difícil, mas necessária. Eu sabia
que não podia ficar parado.” Autodidata e apaixonado por design, começou a aprender
programas de edição gráfica sozinho, com vídeos no telemóvel e apoio pontual de amigos.
Com um computador modesto e uma impressora doméstica, ele começou a fazer convites de
aniversário e cartões de visita. O que parecia um hobby logo ganhou forma de negócio. “As
pessoas começaram a recomendar. Vi que havia espaço para crescer”, disse e acrescentou:
“Agora, não preciso só esperar por indicações. As pessoas já me procuram porque sabem o que
eu faço e confiam no que eu entrego.”
Hoje, a Zyma emprega três jovens em regime informal e atende dezenas de clientes por mês,
de partidos políticos a igrejas, passando por pequenas empresas locais. A gráfica também
funciona como um centro de partilha de ideias e oportunidades. “Aqui, não é só sobre imprimir.
É também sobre criar. Há jovens que vêm aqui só para aprender a mexer no computador ou
entender como funciona o Corel Draw.”
Actualmente, a Zyma é mais do que uma gráfica: é um ponto de encontro de jovens criativos e
um espaço de partilha de conhecimento. João já formou colegas e está a criar oportunidades
para outros jovens que, como ele, enfrentam o desemprego. “Eu quero que mais jovens
acreditem no seu potencial e encontrem um caminho como eu encontrei.”
O horizonte de João Maida não termina em Nampula. Os planos para a Zyma Services vão além
da província, com olhos postos na capital do país e numa estrutura de referência no sector
gráfico.

Com ferro e fogo, Aires soldou a sua própria oportunidade
Muahivire, um dos bairros mais populosos de Nampula, abriga a pequena oficina de Aires Ali
Manuel. Com 27 anos, Aires não tem formação técnica formal, mas aprendeu o ofício de
serralheiro observando os mais velhos e praticando com paciência e persistência. “Não fui à
escola de serralharia. Fui à escola da vida,” declara com firmeza Aires, hoje responsável por
uma movimentada oficina de serralharia no mercado Mulapane, em Nampula.
“A iniciativa começou há bastante tempo. Eu via os trabalhos feitos por outras pessoas e sentia
vontade de criar algo meu, algo diferente. Com o tempo, fui amadurecendo essa ideia. Quando
cresci, percebi que podia investir em algumas máquinas e encontrar alguém para trabalhar
comigo. E assim fiz. A serralharia ainda não tem um ano de existência oficial, mas os trabalhos
estão a correr bem, e Nampula tem-nos recebido com abertura. Não temos do que reclamar,’’
comenta.
Aires, na sua oficina, constrói grades, portões, suportes para painéis solares e repara estruturas
metálicas danificadas. O trabalho é duro, o calor é constante, mas a vontade de continuar é
maior do que os obstáculos.
“Em relação aos clientes, o mercado é competitivo. Existem muitos serralheiros e, geralmente,
cada cliente já tem alguém da sua confiança. É raro uma pessoa trocar de profissional. Estamos
ainda numa fase de adaptação. Há semanas em que não aparece trabalho, mas noutras
conseguimos bons serviços. Apesar das dificuldades, mantemos a firmeza e a esperança, de vez
em quando, surge um cliente, e isso dá ânimo para continuar,” disse
Sem letreiros chamativos nem redes sociais activas, é a palavra de um amigo, o toque no
ombro, a mensagem enviada pelo telemóvel que vai mantendo vivo o negócio, por enquanto, a
sua única fonte de sustento.
“Estamos localizados no Bairro de Muahivire, no controlo, zona de 22 de Agosto, no mercado
Mulapane é lá onde está a nossa serralharia. Sobre a divulgação dos serviços, tenho apostado
nos contactos que tenho. Às vezes, quando encontro amigos, aproveito para falar da oficina,
explicar o que fazemos e o que podemos fazer. Também envio mensagens aos meus contactos,
divulgando os nossos trabalhos. Na verdade, são os amigos e as pessoas do meu círculo que
têm ajudado a movimentar o negócio. Até agora, é a única fonte de renda que tenho.”

Com óculos e imaginação, Chuvane criou um mundo novo em
Nampula

No terceiro andar do Abreu Shopping, em Nampula, está um espaço onde jovens podem voar,
mergulhar, correr ou viver aventuras radicais – tudo sem sair do lugar. É o Mundo Virtual,
criado por Chuvane Cuinica, jovem visionário que transformou o acesso à tecnologia num
negócio e numa porta de escape para o tédio e o desemprego juvenil.
Chuvane Cuinica explica como surgiu a ideia: “Percebemos que havia uma lacuna no
entretenimento da cidade. As pessoas queriam novas experiências. A realidade virtual estava a
crescer no mundo inteiro. Decidimos trazer isso para cá.”
Aberto há menos de seis meses, o espaço já conquistou o público local. Com óculos VR e
cadeiras de movimento sincronizado, os visitantes embarcam em viagens espaciais, desafios de
equilíbrio, montanhas-russas e até passeios submarinos.
“Temos 149 opções de experiências imersivas. As crianças, a partir dos três anos de idade, já
podem brincar. É um espaço familiar, divertido e educativo”, garante Chuvane.
A jovem Rosária do Rosário, de visita a Nampula, ficou encantada: “Senti como se estivesse a
voar. Parecia real. Foi assustador e maravilhoso ao mesmo tempo.”
Além de ser um negócio inovador, o Mundo Virtual é uma prova de que a juventude pode criar
mercados. “Começámos do zero, com esforço e muita fé. Agora queremos expandir, talvez abrir
filiais em outros pontos da cidade.”